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O Currículo Oculto nos Centros Espíritas

Guilherme Knopak

 

Toda instituição, cujos participantes exercem no seu interior uma frequência regular, acaba por criar sobre eles um mecanismo socializador, através de instrumentos explícitos e implícitos. O mesmo ocorre nos Centros Espíritas, onde a sistemática de trabalho e a missão institucional devem estar inseridas dentro de um projeto político pedagógico dotado de um currículo e planos de ação próprios. Entretanto, para além deste instrumento formal, também emerge um currículo oculto, nem sempre reconhecido e avaliado pelos agentes educacionais, mas de importância vital para a formação que se pretende ofertar.

O currículo oculto se expressa de maneira informal – portanto, não mensurável – e incorre em atos e comportamentos rotineiros que geram referências significativas para o aprendizado tácito de quem adere a determinada instituição. No Centro Espírita manifesta-se na conduta e postura dos agentes mediúnicos, nas práticas rotineiras, no mobiliário e no conjunto de relações estáveis e continuadas. Significa, em última instância, as informações que os freqüentadores assimilam de forma não deliberada, mas que se impõe pela força de sua coerência lhes estimulando determinadas predisposições e inclinações.

A partir do momento que se reconhece esta instância oculta do processo socializador é necessário repensá-lo dentro da proposta geral do Centro Espírita onde, mais importantes que as informações debatidas são as transformações das rotinas mentais, havendo necessidade de facultar ao participante estímulos para interpretar a realidade de maneira crítica e diferenciada. Isso se torna tão mais importante quando se aborda uma realidade espiritual e aí se encontram cristalizadas formas mecânicas de reagir e dar significado a esta dimensão. Para ficarmos num exemplo, percebe-se como em muitos lugares os espíritos ainda são entendidos como fantasmas, numa visão de espectros parciais daquilo que foram. Para provocar novas variáveis interpretativas é necessário fazer um breve levantamento da construção de mentalidade do mundo ocidental.

Dostoievski narrou através de uma fábula no capítulo O Grande Inquisidor do romance Os Irmãos Karamazov (naquela que é considerada por Freud como uma das grandes marcas do gênio humano) os mecanismos pelos quais a Igreja exerceu controle sobre os indivíduos pelos recursos do poder, mistério e o medo. O espírito Antônio Grimm, através de mensagem psicofonada pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, abrange esta abordagem e sintetiza as molduras dogmáticas, sacras, esotéricas e místicas como limitadoras do pensamento e imersas no currículo oculto das mais variadas instituições da sociedade ocidental, da família e casamento, passando pelas universidades e centros religiosos. Este entendimento faz eco ao diagnóstico que Freud explora como o mal-estar da modernidade.

Uma vez que o Centro Espírita, instituição aberta, não apresenta um projeto prescritivo, com normas e condutas previamente determinadas, onde basta desaparecer o comando de estímulo e desaparece o comportamento previsto, é fundamental repensar o seu currículo oculto, ofertando através dele referências de estímulo a mudanças internas e permanentes. Neste contexto, o objetivo maior deve ser facultar aos participantes recursos para a reforma mental, tendo como foco as recombinações cognitivas que o farão romper com as molduras mencionadas e nada melhor para isso do que disponibilizar um ambiente, onde tudo informa e comunica, marcado pela estabilidade, regularidade e congruência de relações pautadas num pensamento livre e aberto, cujos sinais permitirão aos freqüentadores socializarem uma prática que tornará possível inclinações e disposições diferenciadas e críticas.

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Sobre o Autor

Guilherme Knopak

Guilherme KnopakSociólogo e Bacharel em Teologia Espírita, formado pela Faculdade Doutor Leocádio José Correia (FALEC), onde atua como professor.

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