Aquilo que ora somos nos revela o que fomos Imprimir E-mail
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O Espiritismo trabalha a reencarnação como um de seus cinco fundamentos. Aludido tema é com absoluta certeza um dos que mais gera curiosidade e questionamentos especialmente para aqueles que estão iniciando seus estudos do sistema de ideias espiritista.

Contudo, é comum verificarmos uma certa tendência para a realização de inferências açodadas (apressadas, precipitadas), que acabam por trazer conclusões falaciosas e que dificilmente trarão efeitos práticos benéficos. Explico:

Para algumas pessoas, o Espiritismo consistiria quase que tão somente em tentar buscar respostas para questões da presente encarnação em possíveis situações ocorridas em encarnações pretéritas, em pretensas ‘pendências’ deixadas para ser resolvidas posteriormente. Imaginam que poderão – através de técnicas por vezes mirabolantes – descobrir exatamente o que foram nas encarnações anteriores (quase sempre na esperança de ‘descobrir’ que foram reis, faraós ou congêneres) e com isso encontrar uma justificativa para o que vivenciam hoje ou para decisões a tomar.

Geralmente, imaginam a justiça Divina como que assemelhada à chamada Lei de Talião (aquela do ‘olho por olho, dente por dente’ contida no Código de Hamurabi e em outros sistemas legais da antiguidade e que foi abandonada já há muitos séculos justamente por ser muito rudimentar e distante do ideal de justiça), tentando justificar situações da presente encarnação de uma forma extremamente simplista e insustentável. Para estes, se ora temos alguma limitação física, ‘certamente’ é porque devemos ter causado limitação de igual natureza a outrem em uma encarnação pretérita; se temos desafetos, ‘certamente’ há de ser alguém que nos fez um grande mal em outra encarnação.

Mas será mesmo que as coisas se passam exatamente dessa forma? Será que a justiça de Deus baseia-se nessa rigorosa e linear reciprocidade? Quais seriam os benefícios de lembrarmos detalhadamente o que fizemos ou deixamos de fazer em encarnações anteriores?

Evidentemente que a temática é sobremodo complexa e digna de ser analisada e debatida de forma bastante detida, o que ultrapassa os propósitos do presente espaço. Porém, é pertinente que se faça algumas colocações de modo a viabilizar a reflexão:

Absolutamente todos nós, ao iniciarmos uma determinada encarnação, passamos por um salutar processo de esquecimento, que nos permite realizar aquilo que for necessário para a presente encarnação da melhor maneira possível. Esse esquecimento do passado faz parte da Lei Natural, a Lei de Deus e, por conseguinte, é absolutamente justo e benéfico para nossa evolução.

Se a lembrança dos detalhes das encarnações anteriores fosse importante no presente momento, evidentemente que não haveria lógica em passarmos por esse processo de esquecimento. Logo, se não nos recordamos dos detalhes, é porque eles não são importantes para o aprendizado que ora devemos fazer, e seria até prejudicial se lembrássemos.

Uma coisa é certa: se não nos é dado lembrar exatamente de tudo que fomos, podemos afirmar que hoje somos uma síntese de todo nosso processo existencial. De fato, vivemos segundo a Lei de Progresso e a cada nova encarnação estamos no ápice de nosso desenvolvimento já alcançado – já que a marcha é sempre no sentido da evolução, não se podendo falar nunca em involução.

Através da prática do auto-conhecimento, podemos de forma intuitiva, acessar determinadas memórias de nossa gênese, desde que isso possa nos trazer algum benefício. Não podemos olvidar que o que importa é o alcance moral e intelectual auferidos, sendo absolutamente indiferente lembrarmos de detalhes corriqueiros.

Aliás, cabe aqui fazermos um paralelo com a nossa vida material, com a presente encarnação: alguém é capaz de lembrar em detalhes o que fez, por exemplo, há exatos 15 anos, no dia 04 de dezembro de 1996?

Possivelmente quase todos dirão que não. Mais do que isso, quase todos dirão que saber em detalhes o que aconteceu naquele dia seria uma perda de tempo, e que se fosse importante lembrar (por exemplo, se tivesse ocorrido algum fato extremamente marcante), lembraríamos. Ainda assim, todos concordarão que aquele dia, assim como todos os outros, foi importante para a nossa vida, já que só conseguimos chegar aonde chegamos através do aprendizado, das vivências e dos relacionamentos realizados em cada um dos dias de nossa vida.

Logo, conclui-se que o ponto central dos trabalhos espíritas não pode nunca ser essa busca desenfreada por informações de nossas encarnações passadas, eis que delas não nos recordamos porque assim determina a Lei Divina e porque assim podemos seguir nossa marcha evolutiva da melhor maneira. O que deve ser incentivado e fomentado é a busca pelo auto-conhecimento, por uma reforma íntima que permita a cada um estar em plena harmonia com o Cosmos.

* Para maiores detalhes sobre o ‘esquecimento do passado’, sugere-se a leitura das questões 392-399 do Livro dos Espíritos.

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